O mito do escritor

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O escritor sentado em frente ao computador se encontra inquieto encarando a tela branca. Aquela era a sua rotina desde que decidiu seguir por aquele caminho. Já era a noite, justamente o horário onde tudo fazia sentido e suas criações fluíam através dos dedos. Quem não o conhecesse, diria que ele era um louco. Dependendo do ponto de vista, até que poderia ser.

Ele adorava a noite. Se sentia livre finalmente. Durante o dia, era a correria, o emprego que tinha para bancar suas contas e loucuras. Infelizmente ser só escritor não dava conta do negócio. E por conta disso, ele tinha que se desdobrar em mil. Adorava dormir tarde, de noite se sentia desperto, mas quando acordava no dia seguinte para trabalhar só lhe restavam olheiras e uma cara de sono.

Às vezes se sentia culpado por isso, mas era um prazer culpado, que instigava e o fazia querer sempre mais. No início, seus amigos de trabalho não o compreendiam, mas com o tempo se acostumaram e até admiravam aquele rapaz que tinha uma vida dupla, feito um agente dos filmes Hollywoodianos.

Olhou pela centésima vez aquela folha. Nada. Odiava quando isso acontecia, quando era pego pelo bloqueio criativo. Isso acontecia quando pensava em coisas que lhe atormentavam: contas para pagar e prazos. Trabalhar com prazos era uma tortura, mas, ao mesmo tempo, excitante. Adorava viver perigosamente.

Chateado, fechou o notebook que pagava em duras prestações e tratou de dormir. O dia não tardaria a raiar e precisava focar sua energia. Dormiu e teve um sono agitado com a sua protagonista, uma detetive sexy e cheia de atitude. Quando acordou, sentiu raiva. Seus personagens brigavam com os seus sentimentos e faziam questão de lhe visitar durante o sono. Esses acontecimentos contribuíam para a teoria dele de que “seus personagens queriam roubar a sua sanidade”.

O dia seguinte foi cansativo. Trabalhava em um escritório e sua vida era chata demais. Ele era o típico funcionário que contava os segundos para ir para a casa e viver a sua outra vida, que lhe fazia feliz e dava uma realização que esse emprego comum e entendiante não dava.

Ao sair do trabalho no final do expediente, resolveu dar uma esticada e fazer um lanche naquela cafeteria cativante que ficava alguns quarteirões do seu trabalho. O tempo estava nublado, quase preto e branco e foi ali que tomou um susto que fez seu coração disparar. Bem ali ao seu lado, andava como quem não quer nada e cheia de estilo, uma mulher que era tão idêntica com a sua protagonista que ele não conseguia parar de olhar. Tratou de recuperar a postura, a mulher poderia pensar que ele estava dando em cima dela.

– Mas que se dane! Sou solteiro. Posso fazer o que quiser, até mesmo flertar com uma mulher que é o retrato fiel da minha criação. – Pensou.

E ser autor era isso. Ver seus personagens caminhando por aí, ganhando vida e aprontando. Isso era uma das coisas mais formidáveis em ser um escritor.

Quando chegou no café, escolheu uma mesa no canto. Pediu um café expresso e uma fatia de bolo para acompanhar. A cafeteria tinha um aspecto acolhedor em tons vermelhos, típico lugar que era frequentado por artistas, desde os escritores, cantores até estilistas e atores. A atendente que já o conhecia, trouxe seu lanche e perguntou sobre o seu novo livro. Ele sorriu, ali era um dos poucos lugares fora da sua casa que conseguia escrever. Geralmente o falatório das pessoas e a correira do dia a dia o impossibilitavam de escrever na rua. Mas ainda poderia contar com aquele lugar. A garçonete saiu e enquanto tomava o seu lanche, um solo de guitarra preencheu o lugar. Arrepiado, ouvia atentamente a música. Era estranho, mas aquela canção lhe dava vontade de escrever. Ela combinava perfeitamente com o seu enredo. Correu e pegou aquele bloquinho que carregava no bolso. Afinal, escritor precisa ser precavido. Nunca sabemos quando a inspiração pode vir. Ela pode saltar quando você menos espera. Cada pensamento que deixa escapar é uma fala ou uma frase que se perde. Depois de anotar, se levantou decidido e pagou a conta. Correu para a casa e quando se sentou em frente ao computador, tratou de digitar freneticamente. Todas as ideias fluíam magicamente pelos dedos. “Escrever é uma dádiva, um dom, um vício”, pensou em frente a tela repleta de palavras, frases e rimas. Enquanto escrevia, o telefone e celular tocavam incessantemente. Não atendeu, pois não podia. Interromper todo aquele fluxo era um pecado, um aborto que não seria louco de cometer. Era sexta-feira, devia ser seus amigos ligando para tomar aquela gelada. Coisa que ele geralmente fazia questão de ir, mas não naqueles momentos. Nessas horas, quando a inspiração vinha lhe visitar, ele se reservava apenas para ela. Era só dela. Seus amigos demoraram para se acostumar e faziam graça daquilo. O criador pedia desculpas frequentemente, não gostava de dispensar a atenção aos amigos, mas era preciso. Escrever era um sacrifício, o renuncio de muitas coisas e ele não se arrependia disso. Vivia mais na ficção do que na realidade. A ficção era tentadora, a fruta mais saborosa e proibida do paraíso. O escritor não se importava, só queria viver a sua escrita. E mesmo depois de terminar de escrever um livro, ele sabia que não era sinal do fim. As histórias podiam ter um fim, mas eram tão cheias de vidas que sobreviviam de um ciclo: criar, revisar, editar, publicar, ler, comentar. Isso não tinha fim. Mas isso era justamente o que o escritor mais gostava. Pois sabia que só assim seria eterno. Suas palavras transbordariam pelo tempo e gerações. E existe algo mais vivo do que isso?

Pois eu digo que não.

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