Faixa a faixa, Músicas, Rock

Faixa a faixa: Admirável Chip Novo (Pitty)

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Alô, alô testando, som! Eu nem acredito, mas finalmente estamos estreando aqui no site a coluna que durante muito tempo foi um grande sonho para mim. Bem, eu sou apaixonada por música e sou o tipo de pessoa que tem música para tudo e não consegue viver sem. Passei grande parte da minha infância traduzindo canções de encartes, porque naquela época não existia vagalume. Gravava minhas músicas em fitas cassetes e não desgrudava do meu discman que sempre sumia quando tirava notas baixas na escola. Bons tempos!

Acho que nunca falei por aqui, mas na adolescência fui roqueira, talvez a maior que você poderia conhecer haha. Eu era o pacote completo: roupas pretas, ouvia rock’n roll o tempo todo. Lia revistas e jornais para saber tudo o que acontecia na cena. Quando estava na internet, não perdia tempo para acompanhar as bandas que eu tanto amava e conhecer o que havia de novo no momento. Atualmente não me considero mais uma roqueira, apesar de continuar amando o rock’n roll e ser muito fã de bandas de rock dos anos 70/80 e bandas indies. Mas continuo me abastecendo de música, eu vivo e respiro música que era um assunto que eu consumia demais até ser substituído pelos livros. Então um belo dia me perguntei, por que não começar a falar disso no meu site? Só que de um jeito diferente. Foi então que surgiu a ideia de criar uma coluna para falar dos meus discos favoritos de todos os tempos. E quando digo discos favoritos, incluo todo o tipo de gênero: rock, pop, reggae, música eletrônica, etc. Atualmente sou bem mais eclética e não, meu intuito não é ser crítica musical ou ter um canal especializado em música. Eu quero falar dos meus discos favoritos, dizer o que eu penso deles, o que mais gosto ou não. É só uma pessoa falando dos discos que ela mais ama, com bastante memória emocional combinando histórias pessoais e músicas. E foi assim que nasceu o faixa a faixa. Eu estou bastante animada e cheia de ideias para esse quadro. Para começar, decidi começar com o disco que marcou a minha adolescência para não dizer a minha vida. Vem comigo que o post é longo, porém muito especial.

 

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Me lembro até hoje quando foi a primeira vez que ouvi Pitty cantando. Na época tinha 13 anos e ouvia rádio quase o dia inteiro. Ouvia muita a Jovem Pan, mas naquela época estava descobrindo o rock e a rádio cidade. Lembro que quando ouvi a voz dela, grave e poderosa ao som de Máscara, pensei Meu Deus, que surreal! Fiquei eletrizada com aquele vocal, o típico vocal que não tem como passar despercebido. Com o tempo, passei a ouvir com frequência máscara na rádio, mas até então não tinha visto fotos da Pitty. Até que uma amiga de escola me apresentou através de uma revista adolescente e pra quê?! Foi amor à primeira vista. Fiquei embriagada com a ideia de ver uma mulher fazendo rock’n roll em um meio até então dominado por homens. Na época ninguém esperava, se quer imaginava isso ser possível, ao menos no meio nacional. Foi a primeira mulher que eu vi fazendo rock (com todas as letras) de forma poderosa e achei aquilo fantástico. Com poses, atitudes e tatuagens que eram o meu sonho de vida. Foi assim que Priscilla Novaes Leone se tornou uma inspiração para mim.

Não demorou muito para eu ter o cd de Admirável Chip Novo em minhas mãos. Ouvia todo santo dia e conforme os singles eram lançados, pirava com os clipes. Para completar, a banda teve a ideia incrível de fazer clipes irados que casavam com o disco e trabalharam bastante o visual, que fez a banda crescer, levar diversos prêmios, etc. Naquela mesma época, Pitty estourou, entrando assim no mercado musical de onde nunca mais sairia.

Poderia falar dos clipes, mas vamos ao que interessa: as músicas e tudo por trás do meu encantamento por Admirável Chip Novo que foi o álbum de estreia da Pitty. O disco contou com Duda na bateria, Joe no baixo, Peu Souza na guitarra e Pitty nos vocais, além de ter participações de Liminha e Paulinho Moska. ACN vendeu mais de 800 mil cópias segundo informações encontradas na internet (mais precisamente o Wikipédia) e tornou – se o disco de rock mais vendido no país em 2003. Com 11 faixas, 5 delas que viraram clipes, ACN é marcado por composições complexas e até então diferentes. O que mais me chamou atenção eram as críticas sociais e reflexões que suas canções carregavam. Minha adolescência não foi nem um pouco fácil. Sofri bullying e como toda garota que se preze, sofria muita pressão pra me adequar ao padrão, coisa que nunca cedi. Nas letras de admirável chip novo, encontrei identificação e familiaridade, coisa que nunca tinha acontecido antes. Na época descobri que o nome do disco é uma alusão ao livro Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley e acho que isso tornou a coisa ainda mais mágica. Na época já era uma devoradora de livros e Pitty só me incentivou mais a ir fundo nisso. É muito louco pensar que sem querer ela faz parte dessa minha escolha de cursar Letras e ser escritora. Naquela época também passei a escrever mais, a escrita virou uma libertação, coisa que a música me proporcionou. Agora vamos ao que interessa, as músicas!

 

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Teto de Vidro: Na época em que ACN foi lançado, era um momento em que o mundo musical era consumido por músicas mais populares como o pop. Atualmente vocês vão encontrar cantoras e artistas engajados, militantes, mas não era assim antigamente. Era muito difícil encontrar músicas com pensamentos e reflexões como o caso desta. O que mais gosto nessa música é o paralelo com o ditado bíblico/ popular e a metáfora sobre comportamentos sociais, a sociedade capitalista e a curiosidade que pessoas têm sobre a vida das outras (nada mudou). Meus versos favoritos são “Na frente tá o alvo que se arrisca pela linha. Não é tão diferente do que eu já fui um dia. Se vai ficar, se vai passar Não sei! E num piscar de olhos, lembro tanto que falei, deixei, calei e até me importei, mas não tem nada. Eu tava mesmo errada” que eu acho que pode caracterizar muito bem a carreira de Pitty. Eles são uma banda que apesar de fiéis a essência, mudaram muito, mas mudar também pode ser uma coisa boa. Acho incrível e libertador esse pensamento sobre mudanças. Viver no final das contas é isso.

Admirável Chip Novo: Faixa título do disco que resume muito bem ele por inteiro. É uma crítica sobre os comportamentos falsos, sobre se deixar ser controlado pela grande massa, pela sociedade, suas regras e etiquetas muitas vezes bobas, machistas e soberbas. Eu sou apaixonada pelo clipe e acho fantástico toda a história que criaram pra ele. Apesar de amar o refrão, sou muito apegada aos versos “Nada é orgânico, é tudo programado e eu achando que tinha me libertado e eu achando que tinha me libertado” que resume bem essa relação que nós temos com questões sociais. A música fala de como é difícil se desapegar e não se deixar ser influenciado pelo meio.

Máscara: Música da minha vida, minha música favorita do disco, sou só amor com essa música. Pitty em muitas entrevistas declarou que foi muito difícil convencer a gravadora de trabalhar essa música, por ela ser longa pra rádio, por conter versos em inglês, que seria muito mais fácil trabalhar equalize por exemplo. Mas eu agradeço muito por ela não ter desistido. Tive muitos problemas para me encaixar na adolescência. Não queria ser a garota fofa e padrãozinho que todos queriam e Máscara foi o hino da minha adolescência. Tenho uma relação tão emocional com essa música que foi com ao som dela que fui buscar o meu diploma na formatura da faculdade e não me arrependo. Esse foi o jeito de eternizar e homenagear essa música que sou eu todinha, corpo, alma e coração. Preciso dizer qual o meu verso favorito? Acho que não né? ❤ “O importante é ser você, mesmo que seja estranho, seja você. Mesmo que seja bizarro, bizarro, bizarro”.

Equalize: a faixa que menos gosto do disco lol. Tô brincando! Lembro que quando a ouvi pela primeira vez, tomei um susto. Achei ela muito diferente das outras músicas do disco e dissonante em relação a elas e a imagem que eu tinha da Pitty (e que ela foi quebrando aos poucos). Apesar de ser uma canção bastante melódica e ter aquela guitarra inconfundível, ela demorou a me conquistar. Mas também quando isso aconteceu, foi um caminho sem volta. Quem diria que ela faria parte da trilha sonora da minha vida amorosa, né? “Até parece que você já tinha o meu manual de instruções, porque você decifra os meus sonhos. Porque você sabe o que eu gosto e porque quando você me abraça, o mundo gira devagar”.

O lobo: Uma das músicas mais fantásticas do disco no site minha opinião lol. Acho genial a crítica que Pitty faz sobre a ganância do homem que levou a guerra e ódio entre a humanidade, desde a pré – história. Lembro de quando ouvi “O homem é o lobo do homem” ficar arrepiada. Por coincidência na mesma época estava estudando Thomas Hobbes na escola e a música me fez gerar interesse e estimulou o meu pensamento crítico. Sou só agradecimentos a esse disco e de como ele me edificou como pessoa.

 

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Formação original da banda com Peu, Duda, Joe e Pitty.

 

Emboscada: Uma das minhas músicas favoritas do disco, amo o clima soturno que rodeia os versos. As críticas e o pensamento que carregam. Eu ainda era apenas adolescente, mas mesmo ali já conseguia entender o que ela queria dizer e agora adulta compreendo ainda mais. Amo quando ela retorna e canta “Reze suas preces e não conte com ninguém. Veja tudo como se não houvesse amanhã” que por sinal é a mesma mensagem sobre aproveitar a vida ao máximo, não deixar as oportunidades passarem que ela passa em Semana que vem, mas de forma diferente. Isso me fez ver como as próprias músicas do disco se casam e que essa “coincidência” não é nem um pouco por acaso. Essa música é repleto de versos incríveis como “Se cada ação traz junto uma reação, você sabia que essa hora ia chegar”. Dá vontade de grifar ela todinha.

Do mesmo lado: Vejo essa música mais como uma canção sobre se unir e deixar as rivalidades de lado. Quase uma metalinguagem, porque durante a música ela ecoa “Então, pensa, ouve e vive a música” como um pedido para ouvir o que a canção quer passar. Temos diferentes personalidades, corpos, formas e histórias, mas no final das contas estamos na mesma situação. Todo mundo tem problemas, decepções e questões durante a jornada de sua vida. Mas querendo ou não passamos por isso juntos. “E eu tô do mesmo lado que você e eu tô no mesmo barco que você”.

Temporal: Apesar dela não ser uma música rock’n roll, ser praticamente voz e violão, sou apaixonada por ela e quando a ouvi pela primeira vez não me causou estranhamento em relação ao disco. Acho que deve ser por causa da Letra que casa tão bem com as outras canções. Para mim, temporal fala sobre essência, ser fiel a suas origens, sobre as lembranças que você tem de lugares, pessoas, histórias que fizeram parte da sua vida, mesmo que você sem querer acabe se distancie delas. Temporal pra mim é sobre honrar suas marcas, suas histórias e ser grato por tudo que passou. Tenho uma relação de muito carinho com ela, que é uma música que me emociona demais. Sempre que escuto, imagino Pitty pensando na Bahia onde tudo começou. É uma música que carrega história e transcende amor e respeito. “Quero uma fermata que possa fazer, agora o tempo me obedecer e só então eu deixo os medos e as armas.” ❤

Só de passagem: Uma das minhas músicas favoritas do disco. Acho incrível o ritmo, a explosão, a letra, tudo. Acho que ao lado de Máscara, O lobo, I wanna be, ela define muito bem o disco, repleto de um clima soturno e crítico. Amo a mensagem que ela passa sobre tudo ser tão passageiro. Acho que a canção tem até um quê meio sobrenatural. Meus versos favoritos são “Eu não sou o meu carro, eu não sou meu cabelo. Esse nome não sou eu, muito menos esse corpo. Não tenho cor nem cheiro. Não pertenço a lugar algum. Eu posso ir e vir como eu quero. Nada me toca nem aprisiona.” É tão punk, desprendido que chega a ser poético. E não posso esquecer dos versos finais. Sempre amei histórias sobrenaturais, será que foi aí que nasceu a escritora de terror? Pode ser hein! “Espíritos são livres, espíritos passeiam por aqui. Espíritos são livres, espíritos só passam por aqui”

I wanna be: A música mais punk do disco, com direito a esporro sonoro e tudo mais. É uma das mais rock’n roll do disco, sem dúvidas. Lembro que a mensagem crítica sobre comportamentos sociais e falsidade me encantou. Meus versos favoritos são: “Abraços vazios, olhares de gelo, tão descartáveis quanto cascas no chão. Flashes capturam a melhor fachada, mas quem vê foto, não vê coração! Não quero mais fantoches ao redor, agindo sempre assim. Só quando for conveniente, Pra ganhar bônus e somar pontos à sua carteirinha de hipócrita oficial.” É engraçado pensar que atualmente essa letra pode passar despercebido, mas antigamente lembro que letras como essa assustavam e muito. Foi um grande rompimento com as canções antigas de rock e renovação do rock brasileiro.

Semana que vem: Última faixa do disco que termina com chave de ouro. A música fala sobre aproveitar a vida ao máximo, que o tempo corre rápido demais e se você não se mexer, a vida passa por você sem ao menos desfrutá-la. Apesar de vibrante e pesada, acho essa canção emocional demais e não poderia ter sido escolhida música melhor pra encerrar o disco. Além de pensamentos críticos, ACN também passa mensagens motivacionais do seu jeito roqueiro de ser. Passa bastante a ideia de que Admirável Chip Novo é uma viagem e que você precisa aproveitar, pois uma hora ele acaba. Os versos “Não deixe nada pra semana que vem, porque semana que vem pode nem chegar” são tão clássicos que algum dia veremos pichados em muros e outdoors.

 

Meu disco devidamente autografado pela minha cantora favorita de todos os tempos

Ano passado, Admirável Chip Novo completou 15 anos e rendeu várias comemorações, como por exemplo o lançamento da fita cassete em uma edição comemorativa do disco que achei sensacional. Isso me lembra que já faz 16 anos que sou fã de Pitty e cia. A banda mudou muito e diversas vezes, o que é normal. Várias pessoas já passaram por ali e deixaram suas marcas e histórias. Fazendo esse post fiquei impressionada em como esse disco continua atual. É isso. Admirável Chip Novo é um disco atemporal, forte, vibrante e que não importa o tempo que passe, sempre fará parte do imaginário de fãs e admiradores. Eu só tenho a agradecer, essas músicas fazem parte de mim e indiretamente me influenciaram tanto a encontrar a mim mesma, o meu sonho e lutar por um mundo melhor!

Espero que vocês tenham gostado do post que foi feito com MUITO carinho. Sei que ele ficou longo, creio que aconteceu por ser o primeiro e apresentação da coluna e por ser um especial. Em breve retorno com mais uma edição especial. E aí, tem em mente que vai ser próxima vítima do Faixa a Faixa? Comenta aí, quem sabe você acerta 😉

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