Crônicas & Brisas, Literatura

Procura-se sinais no universo

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Decidi que não citaria mais o assunto quarentena por aqui, porque além do assunto estar em todo lugar, quero que esse espaço seja um lugar neutro de criatividade, inspiração,  entretenimento e esperança, um lugar onde as pessoas possam fazer uma pausa e ter direito a distração. Mas me peguei refletindo muitas coisas e vi a necessidade de compartilhar essas brisas com vocês.

Não, eu não vou entrar em teorias biológicas, nem em assuntos da área da saúde e nem acredito que a gente deva ficar paranóico e entrar em pânico. Isso é vibrar no medo e o que precisamos no momento é de energias positivas e vibrar no amor e na cura. E no meio de toda essa confusão de pensamentos, me peguei pensando muito sobre uma coisa especificamente. Eu poderia muito bem não escrever nada, mas eu sou escritora e não escrevo há muito tempo. Além do bloqueio criativo me acompanhar por todo esse tempo por um milhão de motivos, não seria diferente agora nesse período, né? Então, quando surgiu essa vontade de escrever esse texto, não pensei duas vezes. A inspiração pode surgir nos momentos mais inesperados, como o Neil Gaiman bem observou. Ele por exemplo,  está escrevendo um livro em uma caverna. É disso que estou falando, entende? Não estou aqui só como pessoa, mas também como escritora, refletindo e colocando pra fora tantas reflexões que tem passado pela minha cabeça. Algum dia vou encontrar esse texto, ler e lembrar de tudo que passei. Isso precisa ser documentado. Como escritora, devo isso a mim, aos meus leitores, a história.

Nesse período de isolamento é claro que vamos sentir saudades da família, dos amigos, das festas, baladas, dos grandes momentos por assim dizer. Mas acredito que seja pelo fato da gravidade da situação, que apesar de sentir falta de festas, etc, isso é algo bem mais controlado. Eu não sentia falta de nada, até que um belo dia, do nada, eu me vi com muita saudade, saudade de coisas pequenas, simples e não foi uma simples saudade. Mas sim aquela que enche os seus olhos de lágrimas. Aquela saudade que bate bem forte lá dentro, sabe? E foi surreal porque não esperava por isso. Essa saudade sempre vem nos momentos mais inesperados, geralmente a noite e me pego pensando em todos os momentos que vivi ou vi aquilo acontecer. E a vontade de reviver tudo aquilo, por mais simples ou bobo que seja, acende dentro de mim a força e a esperança que preciso pra continuar a página seguinte.

Esse turbilhão de sentimentos me pegou de surpresa. Eu não imaginava que sentiria tanta falta de coisas simples, não fazia ideia do quanto aquilo significava pra mim. E sentir aquela saudade, ao mesmo tempo que pode ser triste, é uma mistura de nostalgia com vontade de viver tudo aquilo novamente. Abraçar pessoas, conversar e fazer amizade com as senhorinhas na fila do supermercado, bater papo com os motoristas de uber, ver o centro comercial cheio de pessoas andando pra lá e pra cá com o som berrando um funk ou pagode, que eu vou estar em casa no sábado à noite ouvindo as músicas vindo do parque, sentir de novo o sol batendo no meu rosto me fazendo sentir viva todas às vezes que caminho. Ah, eu vou sentir isso tudo de novo algum dia sim.

Descobri também que estou bem longe de ser uma pessoa antissocial e tímida como sempre imaginei ser. Descobri que sou uma pessoa que gosta de pessoas, de interações, de abraços e da liberdade de ir e vir. Uma coisa é não poder sair porque não quero ou qualquer outro motivo, outra coisa é não ter escolhas. Essa violação é realmente assustadora. Trinta anos caindo por terra tudo o que eu pensava sobre mim.

Foi quando caiu a ficha o que tudo isso significava, que nós estamos sentindo falta da humanidade. Esses pequenos momentos, essas coisas simples que são coisas que nos tornam tão humanos. Sempre que eu lia livros sobre o apocalipse zumbi e via histórias a respeito, achava estranho a forma como eles se tornavam frios, “tão não humanos”. Não que essas situações sejam passíveis de comparação, mas em termos de estado de comportamento, podemos nos aproximar e entender um pouco e eu sinto que é isso que faz falta. Temos saudade da humanidade, dos laços que temos uns com os outros, dos traços que nos tornam tão frágeis e ao mesmo tempo tão humanos. Isso é a vida.

E eu continuo seguindo, procurando sinais no universo de humanidade e eu sei que vou encontrar. Em algum lugar, em algum momento. Ah, eu vou.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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